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sexta-feira, 10 de julho de 2015

'A vida da minha filha foi destruída', diz viúva de PM morto em UPP no Rio

Filha de policial pediu para comemorar aniversário em cemitério.

Comissão atende psicologicamente feridos e famílias de mortos.

Henrique CoelhoDo G1 Rio
Filha de capitão de UPP morto fez desenho mostrando enterro (Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal)Filha de capitão de UPP morto fez desenho mostrando enterro do pai (Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal)
“A vida da minha filha foi destruída”, afirma Bianca Silva, viúva do capitão Uanderson Manoel  da Silva, comandante da UPP Nova Brasília, no conjunto de favelas do Alemão, morto em setembro de 2014. A morte do pai afetou muito a vida de Maria Beatriz da Silva, hoje com oito anos. A menina é uma das muitas pessoas que sofrem para superar o trauma de ter perdido ou ter algum parente policial ferido em áreas de UPP.

O G1 iniciou nesta quinta-feira (9) uma série de três reportagens para contar a história dos policiais que morreram dentro de comunidades que contam com a presença de UPPs no Rio.

"Ela tem passado por psicólogos, mas não melhora. Me bate, me morde, surta e depois chora muito, arrependida. Estou muito nervosa", relata. Bianca diz que a filha, de acordo com psicólogos, desenvolveu transtorno opositor desafiador. "Ela tem dificuldade para aceitar ordens, e diz que morre de medo que eu morra", conta.
As lembranças do dia do enterro foram traduzidas num desenho (confira acima), e ainda emocionam Bianca."No dia do enterro, ela pedia: levanta, papai, levanta!", conta ela. Em outubro do ano passado, pouco mais de um mês depois da morte de Uanderson, Maria Beatriz não quis saber de comemorar o aniversário com festa e presentes. O endereço da comemoração foi o Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, na Zona Oeste do Rio.
'Ela fez questão de ir para o cemitério. As velas do bolo foram apagadas em cima do caixão do pai", conta Bianca.
A Divisão de Homicídios investiga a possibilidade, dada como “quase certa” internamente, de o tiro fatal ter sido disparado por um policial da própria equipe comandada por Uanderson Manuel da Silva. Os resultados dos laudos devem ser apresentados juntamente com os casos de Elizabeth Alves e Eduardo de Jesus,que morreram nos dias 1 e 2 de abril no morro do Alemão.
Acompanhamento
Maria Rosalina, de 74 anos, mãe da soldado da UPP Parque Proletário Alda Rafael Castilho, morta em fevereiro de 2014, afirma que não recebeu ajuda da PM após a morte da filha.
Uanderson foi o primeiro comandante de UPP a morrer no Rio (Foto: Arquivo pessoal)Uanderson foi o primeiro comandante de UPP a morrer no Rio (Foto: Arquivo pessoal)
"Tenho acompanhamento de psicólogo porque meu patrão me paga", diz a empregada doméstica. "Eu tinha muito medo, mas ela nunca teve. No dia em que ela morreu, ela me disse quando chegou na base: 'Estou aqui, um beijo'. E nunca mais falei com ela", lembra ela, emocionada.

De acordo com o boletim disciplinar interno do dia 19 de março de 2014, Alda Rafael Castilho e Marcelo Gilliard da Silva Miranda foram atingidos por disparos de arma de fogo que atingiram o container 1 da UPP. No mesmo confronto, dois moradores ficaram feridos.

Tanto Maria Rosalina quanto Bianca receberam assistência da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio, presidida por Marcelo Freixo (PSOL).

"Querem colocar os direitos humanos contra a atividade policial, e não é esse o objetivo. [O objetivo] É garantir que o direito de todos, inclusive dos policiais, seja respeitado. Se o policial fizer bem o seu trabalho, tem de ser aplaudido. Se fizer mal ou cometer algum desvio de conduta, ele tem de ser afastado, e caso seja condenado, preso", afirmou o deputado.
Policial ferido fez tatuagem para recordar o dia em que "renasceu" (Foto: Delgado Cunha/Arquivo Pessoal)Tatuagem relembra data em que PM foi baleado
(Foto: Peterson Alves/Arquivo Pessoal)
'Estou vivo por milagre'
Peterson Alves, policial da UPP Camarista Méier, morava perto do local de trabalho. Ele estava entrando em uma farmácia para comprar um remédio para a filha quando foi surpreendido por criminosos.

"Levei um tiro no tórax. No hospital, soube que tinha perdido um pedaço do fígado e rasgado o estômago e perfurado meu peito saindo atrás do braço esquerdo. Por incrível que pareça não perdi o movimento do braço", relata ele, que fez uma tatuagem para relembrar o dia em que "renasceu" para a profissão: 18 de julho de 2014.
Poucos dias antes, Anderson Carolino, ex-UPP Jacarezinho, estava próximo à sede da unidade quando levou uma pancada na parte de trás de seu carro. Ao sair do veículo, levou um tiro no abdome que o fez ser internado no Centro de Tratamento Intensivo do Hospital Central da Polícia Militar. "Tive seis órgãos afetados. Tirei baço e vesícula, e por ter ficado sem me alimentar por três meses, emagreci 20 quilos. Tendo perdido tantos amigos e passando por tantas privações, foi difícil. Estou vivo por milagre", conta. Até a publicação desta reportagem, Carolino ainda não havia voltado a atuar como policial militar.
infográfico Crise nas UPPs (Foto: Editoria de Arte / G1)

Comissão atende familiares e feridos
A Comissão de Atendimento a Policiais Feridos das UPPs recebeu, em 2014, pelo menos 90 casos de policiais feridos e mortos, 40 deles apenas entre a criação do projeto, em setembro, e dezembro de 2014. Pelo menos 30 destes 90 casos foram referentes ao Alemão.
Segundo os dados da comissão, foram atendidos 23 policiais por disparos de arma de fogo em março de 2015. Três das sete mortes em unidades de polícia pacificadora em 2015 ocorreram entre os dias 6 e 14 de março.

Peterson e Carolino foram apenas dois dos casos atendidos pela equipe formada por seis policiais, formados em psicologia ou serviço social. Segundo os próprios integrantes da comissão, os trabalhos são focados em um olhar mais social e mais crítico com relação à instituição e ao trabalho dos policiais.
"O paradigma da violência é muito difícil de tirar da cabeça da sociedade, até porque o policial reflete a sociedade que o rodeia. É difícil você manter a serenidade em uma área conflagrada", explica Francisco Guimarães, psicólogo de 32 anos, que trabalhou por quatro anos na UPP Vila Cruzeiro.
Entre as maiores dificuldades, segundo a assistente social Pamela Themudo, estão os gastos mais contidos devido à crise orçamentária no estado, além do componente emocional. “Temos que tentar não nos apegar, porque senão não trabalhamos direito. Mas nosso trabalho é desenvolver a empatia, apesar das dificuldades dentro da corporação”, avalia ela, antes de atender à mais uma ligação da família de um policial ferido.

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